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Governar às avessas


Já devia estar habituada às decisões aparentemente impensáveis que este governo toma todos os dias e das quais sabemos das formas mais, digamos, inusitadas. Afinal já vai ano e meio deste governo, em que o lema parece ser “quanto pior melhor”. Isto a propósito do pedido de um relatório ao FMI, que foi hoje (dia 9.01.13) conhecido. Coincidência ou não vai completamente na direcção contrária à da sugestão do Presidente Cavaco Silva no seu discurso de Ano Novo, no que respeita à necessidade de contrariar a espiral recessiva a que governo nos leva conscientemente  e com grande determinação. Oxalá pusessem todos os ministros mais ou menos liderados pelo 1º ministro, pôr tanta determinação em encontrar soluções que não tenham como objectivo o empobrecimento colectivo da maioria dos portugueses.

Como é possível que em pleno século XXI, em que o objectivo  continua a ser erradicar a pobreza, se tenha como objectivo para a nação que ainda somos, e para parte da Europa a que pertencemos um tal contrassenso? Se toda a orientação governativa e leitura da realidade económica, política e social tiverem como princípio orientador esta ideia demencial do empobrecimento, sem dúvida que a busca de soluções para os problemas fica dramaticamente afunilada. Ou melhor, a probabilidade do sucesso do insucesso da responsabilidade governativa para com os cidadãos, nós, ditos “o soberano” que é a de assegurar a melhoria das instituições e as condições do nosso desenvolvimento, justiça, igualdade e liberdade de opções torna-se no seu oposto. O governo não pode ser contra o povo, ou como lhe queiramos chamar, e é. Tal como a Europa não pode trair o projecto europeu.

E estamos a consentir. Se assim continuarmos seremos coniventes com a destruição de tudo aquilo de que nos pudemos orgulhar, uma sociedade mais justa e moderna em relação aos anteriores 40 anos de ditadura e independentemente disso, melhor em si mesma. As políticas sociais, das quais neste momento e de direito beneficio, nomeadamente do nosso excelente, digo excelente, Sistema Nacional de Saúde (e penso dos milhões de pessoas com quem compartilho esses serviços) são um “problema” a erradicar por cortes cegos? O problema da sua sustentabilidade não é despiciendo. Só que a solução em curso  consiste na sua destruição – que não é uma surpresa para quem estivesse atento à campanha eleitoral do PSD, – em vez da procura de soluções integradas que o permitam melhorar sustentadamente. Tal não é compatível com uma ditadura financeira e com uma economia transvertida que deixou de ser ciência articulada com a política e de maneira nenhuma acima desta última.

Conheço os termos que servem de justificação a esta lavagem de cérebro a que somos sujeitos, como método de anestesiar a nossa capacidade de pensar por nós mesmos. Muitos desses itens são inescapáveis. Há que ter em conta aspectos daquilo que estamos fartos de ouvir, como a necessidade do pagamento da nossa divida soberana, por exemplo.  Mas uma coisa para mim é certa: não é ficando mais pobres, miseráveis…que iremos ficar mais ricos, e pagar as nossas dívidas, etc. etc. E não é apenas da contradição nos termos que se trata, pior ainda é a odiosa ideologia que lhe subjaz.

Zaza Carneiro de Moura

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