Governar às avessas


Já devia estar habituada às decisões aparentemente impensáveis que este governo toma todos os dias e das quais sabemos das formas mais, digamos, inusitadas. Afinal já vai ano e meio deste governo, em que o lema parece ser “quanto pior melhor”. Isto a propósito do pedido de um relatório ao FMI, que foi hoje (dia 9.01.13) conhecido. Coincidência ou não vai completamente na direcção contrária à da sugestão do Presidente Cavaco Silva no seu discurso de Ano Novo, no que respeita à necessidade de contrariar a espiral recessiva a que governo nos leva conscientemente  e com grande determinação. Oxalá pusessem todos os ministros mais ou menos liderados pelo 1º ministro, pôr tanta determinação em encontrar soluções que não tenham como objectivo o empobrecimento colectivo da maioria dos portugueses.

Como é possível que em pleno século XXI, em que o objectivo  continua a ser erradicar a pobreza, se tenha como objectivo para a nação que ainda somos, e para parte da Europa a que pertencemos um tal contrassenso? Se toda a orientação governativa e leitura da realidade económica, política e social tiverem como princípio orientador esta ideia demencial do empobrecimento, sem dúvida que a busca de soluções para os problemas fica dramaticamente afunilada. Ou melhor, a probabilidade do sucesso do insucesso da responsabilidade governativa para com os cidadãos, nós, ditos “o soberano” que é a de assegurar a melhoria das instituições e as condições do nosso desenvolvimento, justiça, igualdade e liberdade de opções torna-se no seu oposto. O governo não pode ser contra o povo, ou como lhe queiramos chamar, e é. Tal como a Europa não pode trair o projecto europeu.

E estamos a consentir. Se assim continuarmos seremos coniventes com a destruição de tudo aquilo de que nos pudemos orgulhar, uma sociedade mais justa e moderna em relação aos anteriores 40 anos de ditadura e independentemente disso, melhor em si mesma. As políticas sociais, das quais neste momento e de direito beneficio, nomeadamente do nosso excelente, digo excelente, Sistema Nacional de Saúde (e penso dos milhões de pessoas com quem compartilho esses serviços) são um “problema” a erradicar por cortes cegos? O problema da sua sustentabilidade não é despiciendo. Só que a solução em curso  consiste na sua destruição – que não é uma surpresa para quem estivesse atento à campanha eleitoral do PSD, – em vez da procura de soluções integradas que o permitam melhorar sustentadamente. Tal não é compatível com uma ditadura financeira e com uma economia transvertida que deixou de ser ciência articulada com a política e de maneira nenhuma acima desta última.

Conheço os termos que servem de justificação a esta lavagem de cérebro a que somos sujeitos, como método de anestesiar a nossa capacidade de pensar por nós mesmos. Muitos desses itens são inescapáveis. Há que ter em conta aspectos daquilo que estamos fartos de ouvir, como a necessidade do pagamento da nossa divida soberana, por exemplo.  Mas uma coisa para mim é certa: não é ficando mais pobres, miseráveis…que iremos ficar mais ricos, e pagar as nossas dívidas, etc. etc. E não é apenas da contradição nos termos que se trata, pior ainda é a odiosa ideologia que lhe subjaz.

Zaza Carneiro de Moura

Aside

http://www.ted.com/talks/julia_bacha.html

A CRIATIVIDADE DE TODOS NÓS


A CRIATIVIDADE DE TODOS NÓS

Zaza Carneiro de Moura

                                          Madame Mutter! Ich esse gerne Butter
                                  Senhora minha mãe! Gosto muito de manteiga

Criatividade, talento e arte

A que propósito destacar numa parede uma frase tão banal desenhada em néon? Sobretudo de alguém que deixou um enorme arquivo de correspondência, como é sabido? Podemos achar que a letra é elegante, imaginar que a irradiação da luz com um suave halo azulado mesmo de dia é agradável, que a proporção relativamente ao espaço é conseguida – tanto quanto se pode ver nesta imagem – gerando uma apreensão visualmente equilibrada do todo. Subindo a escada de serviço, até ao 3º piso da Casa onde Mozart nasceu em 1756, na cidade de Salzburgo, seria difícil não ver, ainda que de relance a escultura de palavras em néon na parede em frente. Elucide-se que se trata de um elemento da instalação encomendada a Roberto Wilson, por altura da comemoração dos 250 anos do nascimento do compositor, em 2006.No percurso da exposição a escultura marcará porventura a passagem de acesso do exterior para interior da casa, para um espaço metaforicamente revisitado e tornado cénico entre o lúdico e o mágico.

Agora que penso nisso, aquela frase em néon chama-nos a atenção para a criança “ de carne e osso” que ali nasceu – Wolfgang – que como todos sabemos, foi um interprete e compositor precoce genial. Seja, mas porquê precisamente aquela frase? Ora é o próprio R. Wilson quem nos diz no folheto que acompanha a visita à instalação, a razão desta escolha… “o inicio de um poema que Wolfgang dedicou à mãe demonstra um traço da sua personalidade – a alegria que lhe dava fazer rimas, brincar com o duplo sentido das palavras, com a sua sonoridade, com o significado, o seu sentido e sem sentido, e fazer trocadilhos”. Um dos efeitos que um objecto ou produto fruto de uma dada criação artística, imaginemos uma pintura, pode proporcionar na relação com ele estabelecida pelo espectador, será o de estimular a curiosidade e disposição para descobrir a intenção do autor na tentativa de o entender melhor. Assim sendo, seja em simultâneo ou após um primeiro juízo de valor do tipo – gosto, não gosto – significa que se passou a outra fase da apreciação, ou se quiser da relação estética. Pára-se diante da obra, talvez porque nos intriga ou atrai, ou repele, ou por qualquer outra razão. Então centra-se a atenção na tela percorrendo-a com o olhar mais demoradamente. Tal pode ser o início de um diálogo silencioso, prolongável através da memória para outros espaços que habitemos, para gozo próprio e proveito futuro. Em parte dependerá da pesquisa individual deliberada ou até de inesperadas associações de ideias e imagens e emoções que ocupam a nossa mente. O diálogo entre quem vê e uma certa imagem é algo de íntimo e livre. Mas não só. Pode ser realizado num processo comunal, frente a uma obra num museu, por exemplo, ou a sua reprodução se for uma sala de aula, em que um grupo de pessoas – a idade não importa – entra em diálogo devidamente “facilitado” por alguém preparado para o fazer; trata-se de descoberta e não transmissão de conhecimento; trata-se de melhor fruir da obra em questão. Chamar escultura a esta peça de Bob Wilson, compreende-se que possa levantar a questão do que é a arte, e mais precisamente no caso presente, o que é que faz com que algo seja uma escultura. Mas não é disso que agora estamos a tratar.

Aqui está outro exemplo de uma escultura com o mesmo material: Bruce Nauman Neon, 1983 Life Death Love Hate Pleasure Pain[3] Tal como acontece com a escultura de Wilson pode causar-nos estranheza já que os respectivos artistas parecem apropriar-se do letreiro luminoso cuja função é apenas comercial, obliterando-a ao mesmo tempo que, com os mesmos recursos e técnicas, conferem às suas obras uma função comunicativa completamente diferente, não utilitária. Estes três exemplos, todos no domínio das artes, são reveladores da capacidade criadora dos seus autores. Quer dizer que a criatividade está apenas confinada às artes e, acrescento, à literatura incluindo a poesia? Assim se pensou quase até ao final do século XIX. Atributo dos deuses, de inspiração divina, ou do génio e talento de apenas alguns, artistas, poetas, escritores, esses sim, os bafejados pelo dom da criatividade. Talvez que esta última ideia ainda não esteja completamente afastada nos nossos dias. É já nos alvores do século XX, com o desenvolvimento da Psicologia e mais tarde da Neurociência que essa convicção se vai genericamente alterar.

O que é a criatividade?

Agora imaginemos uma bela tarte de frutos, uma ponte sobre um rio e lembremos a fórmula da teoria da relatividade de Einstein. O que há de comum entre as três coisas? – A criatividade. – é neste momento a resposta mais provável. O que, naturalmente leva a perguntar de seguida o que é a criatividade. De que falamos quando a referimos? Desde logo, mesmo actualmente não há consenso na sua definição. Não há uma definição unívoca ou satisfatória, suficientemente abrangente. Tem de se ter em conta tratar-se, por um lado, de um conceito dinâmico e aberto em construção, e um processo de pensamento em que interferem inúmeras variáveis para o seu desempenho: tipo de raciocínio, características da personalidade criativa, ambiente, motivação, etc., e por outro, o produto desse acto. O facto é que a identificámos como um traço comum de três produtos tão díspares, comestível, uma construção de engenharia, e um objecto imaterial, isto é, uma teoria elegante que tem impacto no mundo físico (mas podia não ter). Donde se segue que a criatividade engloba a arte, mas não apenas a arte. As pessoas geniais são criativas, mas nem todas as pessoas criativas são geniais. O que já sabíamos. Estranho? Ora se entendermos por “dom” ser dotado da capacidade de…, o mesmo será dizer que todos a possuímos em maior ou menor grau é certo, quer tenhamos ou não consciência disso. Reformulando a pergunta inicial, em que consiste a capacidade de criatividade? Há quem defenda que consiste “no uso da intuição e da racionalidade para produzir algo original pela combinação de conhecimentos anteriores com novas perspectivas, ou a partir de novos ângulos”. Parece haver aqui palavras com significado algo vago, igualmente de difícil definição, o que por sua vez fragiliza a acuidade da definição de criatividade, a saber “intuição” e “original”. Todavia, por pouco clara que seja a ideia de intuição, tal como a criatividade, ela é-nos familiar. É algo que apercebemos, de forma não completamente racional, mas – e a palavra era outra vez, que “intuímos” – misto de sentimento e emoção e talvez de cognição, que irrompe na nossa consciência sem darmos bem como, por exemplo, a solução de um problema num determinado contexto, ou uma indicação para verificar a sua solução. Quanto à ideia de original que muitas vezes identificamos com a ideia de novo, enfrentamos a mesma dificuldade que não se resolve com um dicionário e que é igualmente uma questão partilhada pela filosofia e pela psicologia. A este respeito, a distinção da criatividade em psicológica e histórica estabelecida por Margaret Boden, psicóloga e neurocientista da cognição, investigadora com créditos na área criatividade, é esclarecedora quanto à radicalidade do novo[4]. Na primeira, uma ideia é original, nova para a pessoa em relação às suas ideias anteriores. Ignora haver outros que já tiveram a mesma ideia anteriormente. Uma ideia completamente nova, que é mais rara, é nova para humanidade. É a criatividade histórica. Outra das características da criatividade segundo a definição atrás enunciada, consiste na capacidade de ligar elementos conhecidos com outras perspectivas, dando origem a novas ideias e/ou factos. É de supor que nem todas as combinações que ocorram à mente sejam pertinentes e relevantes. Como fazer? A esse propósito, o matemático Henri Poincaré, citado por Damásio[5], toca exactamente na questão da selecção das combinações relevantes no que toca à investigação matemática.  “Afinal o que é a criação matemática? Não consiste em fazer novas combinações com entidades matemáticas já conhecidas. Qualquer um o pode fazer, só que as combinações obtidas seriam em número infinito e muitas delas destituídas de interesse. Criar consiste não em fazer combinações inúteis, antes sim em efectuar as que são úteis e que constituem uma pequena minoria. Inventar é discernimento, escolha”. Quer isto dizer que a escolha das combinações “úteis” é previamente orientada pela natureza da investigação? Pode-se extrapolar a mesma necessidade para qualquer processo mental criativo noutro domínio? Assim parece ser. Inventar (criar) não se aplica apenas, às ciências e às artes, como bem sabemos. Corresponde a uma capacidade que todos temos, obviamente, em maior ou em menor grau, que hoje em dia se considera cada dia mais indispensável desenvolver. Porquê a relativamente recente atenção a este aspecto da vida mental? Pergunta que fica por alguns parágrafos em suspenso. Posso no entanto adiantar que, a meu ver, a investigação a nível do funcionamento do cérebro, a recolha e tratamento de dados, de que aqui não vou tratar, tem nas três últimas décadas disposto de instrumentos sucessivamente mais capazes de observar o cérebro ao vivo, sem invasão do organismo e não apenas pelos resultados de intervenções cirúrgicas necessárias para manter a vida dos pacientes. Por exemplo, em relação aos meios de diagnóstico, da radiografia obtidos graças à invenção da fMIR, “imagem funcional da ressonância magnética”[6]. Criar é um acto mental complexo que agrega muitas outras habilidades de pensamento como sejam inventar, descobrir, seleccionar, decidir, discernir, ajuizar, raciocinar, associar, usar critérios, o interesse (relevância), utilidade (valor, eficácia), fazer analogias etc. Daqui não se segue ser a função cognitiva (razão) completamente separada da emoção e vice-versa. Na definição acima está expressa a permeância da razão e da emoção no exercício da criatividade. Uma posição que ainda há três décadas não colhia a unanimidade dos investigadores. “A criação é alimentada pela vida emocional tanto na esfera da ciência, como nas esferas da poesia e das artes”. Quem o afirma é o filósofo da educação, Israel Schaffler no livro In Praise of Cognitive Emotions.[7]A ciência é conhecimento objectivo, dizem alguns, a arte tem uma forte componente subjectiva acrescentam outros. A uma a cognição, a outra a emoção. A relação é de oposição. Não é tal, é de junção: “Não pretendo reduzir a emoção à cognição, nem a cognição à emoção, apenas mostrar como o funcionamento cognitivo emprega e incorpora elementos emocionais diversificados – sendo que em virtude disso estes últimos ganham significação cognitiva” … “Acontece que a emoção sem a cognição é cega…e que a cognição sem emoção é oca”. [8] Olhemos de novo com atenção para a imagem imediatamente anterior. Desejavelmente, a obra não deixa o receptor indiferente. Todavia, não é de crer que a roda das palavras luminosas só de a vermos nos faça sentir fortemente as emoções de amor, ódio, dor. Não sendo o caso, mais prováveis serão os sentimentos de curiosidade e perplexidade, ou prazer e desprazer perante o que para uns classifica como obra de arte, para outros não. Uma discussão persistente na filosofia da arte, cujas várias teorias explicativas vão sendo postas à prova. Todavia, são palavras que enquanto conceitos podem muito bem pôr-nos a pensar sobre as emoções que lhes correspondem e que mais ou menos conscientemente já experimentámos. A este respeito Matthew Lipman faz notar que “se queremos educar as crianças no que toca às emoções, temos de começar por lhes ensinar as palavras que usamos para identificar essas emoções. Teremos igualmente de lhes ensinar as relações que nos permitem relacioná-las com outras emoções, ideias e conceitos, pessoas, a grupos de pessoas e assim sucessivamente”[9]. Uma imagem como esta pode perfeitamente utilizar-se para iniciar um diálogo em que as crianças entram de imediato no tema, fazendo-o seu. Justamente uma relação fácil e eficaz de o fazer liga-se aos conceitos/sentimentos de curiosidade e de surpresa que são também emoções cognitivas. Scheffler, não surpreendentemente destaca-as pela sua importância para o conhecimento. Aliás disposições comuns ao comum dos mortais, passe a redundância. As emoções não são evidentemente apenas de tipo cognitivo. Note-se que, tal como Matthew Lipman mais ou menos pela mesma época[10] -, Schefller, considera serem as emoções no geral, as disposições emocionais e os sentimentos importantes na internalização das normas racionais, sublinhando entre outras o amor à verdade e desprezo pela mentira, a preocupação com o rigor na observação, repulsa pelas distorções e correspondentemente pelo erro lógico ou factual, respeito pelos argumentos avançados por outros, admiração porEmoções que acompanham convicções e valores existenciais no processo de conhecimento.

A criatividade não se deixa definir facilmente, é um facto. A própria evolução da investigação em psicologia, neurociência e filosofia contribui para isso ao ir alargando o campo da sua aplicação. No fundo, as diferentes cápsulas de identificação deste fenómeno da vida mental funcionam, segundo me parece, como premissas de uma teoria em desenvolvimento que as substancia. Mary Boden, a investigadora já citada, num artigo publicado em 2004, Creativity: How does it work? [11] define-a como “a habilidade (capacidade) para ter ideias que são novas, surpreendentes e válidas”. Ideia é aqui um termo abreviado, explica, que tanto pode ser um conceito, uma imagem poética, uma imagem científica ou até uma forma particular de taxação… Até aqui não entra per se em conflito com a definição de criatividade a que tenho vindo a fazer referência, o que me parece ser aceitável pensar, quando afirma de forma muito clara, que “a criatividade está presente em todas as áreas da vida: não apenas na arte, não apenas na ciência, nem apenas nos negócios. Mais, é um aspecto comum da inteligência humana do adulto. Quer isso dizer que toda a gente a tem, embora alguns de nós a mostremos com mais frequência e mais convincentemente do que outros”. Agora, há duas ilações a retirar carecendo é certo de corroboração em futuro estudo; portanto, 1) ao que parece, a criatividade é temporalmente detalhada, ou seja, sendo parte da inteligência normal adulta, deixa de fora o ser humano na sua infância e juventude? 2) ao reconhecimento da presença da criatividade nas áreas da ciência e da arte, salienta também a área específica dos negócios, (business).

Qual o processo mental por detrás da criatividade?

A pergunta muda o ângulo de busca de compreensão da criatividade subsumível numa definição, para a compreensão do processo de pensamento criativo e vice-versa. São vários os psicólogos que durante o século vinte abordaram nesta perspectiva a criatividade. Refiro apenas três deles, a) Graham Wallas (1858 -1832), b) Joy P. Guilford (1897 – 1987) e c) Eduardo de Bono (1933-) todos autores de modelos de pensamento criativo. A educação é um dos terrenos de impacto das suas teorias, para alguns  a começar nas crianças, como também o é a aplicação prática à solução de problemas, por exemplo, na área dos negócios para outros. Finalmente, d) o filósofo Matthew Lipman, (1922-2010) que contraria a visão do desenvolvimento isolado da criatividade, reestrutura a disciplina humanística da filosofia “para uso das crianças e dos jovens” de modo a proporcionar o desenvolvimento do pensamento crítico, criativo e ético, a que corresponde grosso modo na terminologia até aqui utilizada ao entrosamento da razão e da emoção com a acção eticamente ponderável, ou seja do pensamento de ordem superior (POS).

a) O modelo do processo criativo de Graham. Wallas (1920) é um dos mais conhecidos continuando a ser estudado e debatido. O modelo destaca quatro fases (inicialmente eram reconhecidas cinco) do processo. Preparação – fase da aquisição de técnica e conhecimentos básicos e do estudo do(s) problema(s) a que se aplica. Incubação – como o nome indica diz respeito ao trabalho que se inicia a nível do consciente e que depois é trabalhado pelo inconsciente. Tem a ver com a nossa capacidade de intuição. Iluminação – é o equivalente de Eureka, a descoberta repentina da resposta a um problema, quando menos se esperava. É aquilo que resulta de uma elaboração ocultada da consciência e que irrompe à luz para continuar a ser desenvolvida num estádio mais avançado, ou mesmo conclusivo no plano da consciência. É usualmente acompanhada pela sensação de se ter alcançado a resposta adequada ou a solução do problema. Numa das suas cartas Mozart descreve muito bem esse movimento criativo de que uma parte escapa à consciência – “quando me encontro mergulhado em mim próprio, completamente sozinho e bem-disposto, é nessas ocasiões que as minhas ideias melhor fluem e em maior abundância. Donde e como surgem não sei, nem as posso forçar”.[12] Verificação – por muito inspirada que uma ideia seja tem de ser exequível. Há um traço comum às pessoas criativas que Wallas e outros apontam – a capacidade de trabalho e de estudo. Por outras palavras, nem Mozart por mais genial que fosse poderia desenvolver as suas extraordinárias capacidades se não tivesse tido educação musical, e humanística, precoce como ele mesmo o era, nem se empenhar permanentemente ao longo da sua vida em superar-se a si próprio trabalhando incessantemente na sua arte.

b) Da vastíssima contribuição do psicólogo Joy P. Guilford para o avanço do conhecimento da vida mental do ser humano, incluindo a criatividade aponto apenas brevemente duas delas. Deve-se-lhe, o que vale a pena salientar aqui, pelas suas implicações práticas, duas descobertas, uma traduzida na identificação dos modos convergente e divergente de pensar, e outra relativa à identificação da inteligência. Ou seja, no segundo caso, a descoberta de que a concepção da inteligência mensurável por testes de IQ, não dá conta do facto dela ser um compósito de várias habilidades ou capacidades, (abilities) classificou 180 prevendo que se descortinariam futuramente mais. Duvidava da imutabilidade da vida mental e achava que se podia treinar as crianças a ser mais inteligentes. A educação da inteligência é a educação inteligente”. Em 1955 criou a primeira versão do seu modelo da Estrutura do Intelecto (SOI) aplicável à educação. No Japão, nas escolas que adeririam ao modelo, as crianças desde tenra idade começam fazer exercícios para melhorar o seu pensamento a criatividade entre outras áreas. Se por uns momentos, pensarmos no que há de similar entre uma banana e um pêssego; o mais provável é responderem que são ambos frutos, o que está correcto. Para chegar a esta resposta usámos o raciocínio lógico. Sabendo nós que a banana e o pêssego pertencem ambos à categoria da fruta, concluímos ser essa a semelhança. Usámos o pensamento convergente. – E mais? – Uma tal pergunta encoraja a procurar inclusive semelhanças algo insólitas ou até ridículas como – “se nos sentarmos em cima esmagam-se”, ambos põem nódoas difíceis na roupa, ou podemos fazer doce, ou ambos nos podem fazer escorregar, etc. Acontece que em vez de uma única resposta damos múltiplas. É isso que acontece quando pensamos de modo divergente, criativo. Significa que o pensamento convergente não é importante? Claro que não. Pelo contrário, sem este tipo de pensamento correríamos o perigo de não conseguir seleccionar, ordenar e tirar ilações apropriadas das múltiplas ideias na procura da solução de problemas. Não se trata de uma relação de oposição, sim de uma relação de interacção. Importa desenvolver ambas cognição e a criatividade.

c) A teoria da criatividade do célebre psicólogo Eduardo de Bono tem conhecido grande sucesso, sendo aplicada na área da educação e fora dela. O sucesso em várias áreas é devido aos instrumentos e metodologia que foi desenvolvendo e à divulgação e formação em cursos que proporciona para esse efeito. Na sua terminologia, ao pensamento divergente corresponde, grosso modo, o pensamento lateral de Guilford e o pensamento criativo de Lipman. As pessoas descobrem, por exemplo, novos ângulos e perspectivas na abordagem de problemas e na procura de diferentes soluções. É um tipo de pensamento que não segue passo a passo um dado percurso lógico sem se desviar, como acontece com o pensamento vertical. Pelo contrário, é como se houvesse um tronco cujos ramos tivessem múltiplas ramificações e escolhem orientar-se em múltiplas direcções[13]. Digo escolher para acentuar a procura consciente de uma via diferente para atingir uma solução. Quanto mais se desenvolver esta capacidade de pensar ao lado, maior será a possibilidade de encontrar ou promover soluções originais que de outro modo ficariam inibidas. Como promove esse tipo de raciocínio? Eis uma referência breve a um desses instrumentos para a área da educação: Os Seis Chapéus Do Raciocínio, (Thinking Hats). É um misto de instrumento e de estrutura. Abordou os seis chapéus “como um instrumento orientador da atenção, isto é, para dirigir a atenção para um “tipo” ou modo de pensar”[14]. O carácter lúdico funciona com todas as idades, usado em grupo ou em solitário, desde que a pessoa se imagine a pôr um dos chapéus os quais pode ir trocando se o quiser. Cada cor está associada a um leque de emoções e tipo de raciocínio. Para ilustrar basta aqui mencionar dois deles: chapéu preto simboliza o negativo e a crítica. Usa-se para criticar e fazer objecções. Por exemplo, quando afirmo a casa não está em condições de ser habitada, não tem electricidade. Com o chapéu preto raciocínio solicitado é de tipo lógico “deve ser sempre lógico e deve-se apresentar razões”. Já quem tenha o chapéu verde cabe-lhe pensar de maneira escapar aos esquemas habituais de pensamento como sugere a pergunta, “E que tal sairmos disto e tentarmos uma abordagem completamente diferente?” A analogia da cor tem a ver com a fertilidade e o crescimento.. “É o chapéu gerador de ideias construtivas e de novas ideias”.

d) Por sua vez Matthew Lipman, ele mesmo também um exemplo de criatividade e inovação, usa a filosofia por ser a disciplina adequada para o desenvolvimento das dimensões, crítica, criativa e cuidadosa do pensamento, cuja articulação dinâmica constitui o pensamento de ordem superior. (P.O.S.) que pode e deve ser desenvolvido desde a infância. Como filósofo, professor de lógica na Universidade de Colômbia, e pai com filhos na escola, (no final da década de sessenta) tornara-se-lhe evidente persistir uma lacuna grave na educação que era preciso eliminar: a ausência de uma educação reflexiva que possibilitasse aprender a pensar melhor e por si mesmo. Como fazer? Descobrindo um novo ângulo para a resolução do problema, que consistiu no caso na reestruturação da filosofia para uso das crianças e dos jovens e o uso privilegiado da descoberta quer das matérias, quer do conhecimento de si e dos outros através do diálogo. Nasce então como é sabido a Filosofia para crianças, expressão que então cunhou e que reflecte uma abordagem inteiramente nova da filosofia. Em finais da década de sessenta do século passado começa a construir um currículo específico – materiais e metodologia – que assegura entre outras a relação entre a teoria e a prática, relação essa que nada tem de estático. Por exemplo, a dimensão do pensamento cuidadoso “estava lá inicialmente” diz Lipman, ou seja já era considerada constitutiva do pensamento de ordem superior (POS), sendo a pouco e pouco mais explicitada. Em 1991, em Thinking in Education, afirma “O pensamento de ordem superior, note-se, não é o equivalente do pensamento crítico, mas sim uma fusão do pensamento crítico e criativo. Isso torna-se particularmente evidente quando os aspectos critico e criativo se reforçam mutuamente como acontece quando o pensador crítico inventa novas premissas, ou quando o pensador criativo imprime uma nova direcção à tradição artística ou a uma convenção.[15] Quando ouvimos durante um diálogo filosófico em sala de aula, ou num qualquer espaço não formal, não importa agora, alguém a certa altura dizer, – bem, eu dantes não pensava assim mas agora já penso …, não se trata de dar o dito por não dito com o maior dos à-vontades. Aliás o rigor na argumentação exige o maior cuidado com erros de raciocínio como seria por exemplo, a incoerência. Quando alguém diz uma frase como esta numa comunidade de investigação filosófica, ou numa conversa informal, significa, pelo menos, que tomou outras perspectivas em consideração, que foi capaz de as comparar com a sua, usando critérios ou razões, e ajuizou em conformidade. É pensar sobre o seu próprio pensamento ao mesmo tempo que integra as ideias ou as razões avançadas por outros e as avalia como relevantes, ou não, para o assunto em discussão. É a própria pessoa a corrigir-se com os outros. A pouco e pouco estes procedimentos vão sendo interiorizados para outras situações da vida quotidiana. Ora, a autocorrecção pois é disso que se trata, é um traço do pensamento crítico, tal como o são a sensibilidade ao contexto e a capacidade de ajuizar. Por sua vez, o pensamento criativo é guiado pelo contexto, basta pensarmos na escrita de um poema, ou de uma notícia no jornal. Sendo textos com exigências estilísticas muito diferentes, e responsabilidades diferentes, encontrar a palavra certa que tem o efeito desejado é comum. No verso citado, logo de início, “Madame Mutter ich esse gerne Butter”, Mozart obtêm como descobrimos uma sonoridade rítmica propositada acentuada pela sílaba er em duas das palavras, impossível de reproduzir em tradução para português sem alterar o referente de uma delas. Em vez de “manteiga”, uma palavra que rime com “mãe”. Outros traços são a sensibilidade a critérios e a vontade de ultrapassar-se, de se superar. A atenção progressivamente dada por Lipman e Ann Margaret Sharp e outros, ao desenvolvimento do pensamento cuidadoso, da tolerância, do respeito mútuo, da afectividade, aliás traços desde sempre presentes quer na fundamentação quer na metodologia da FpC ou da comunidade de investigação, tem enormes implicações a nível das nossas escolhas e intervenções no mundo em que vivemos e sobretudo como vemos e lidamos com o outro. “Aprende-se mais sobre cada dimensão do pensamento [crítico, criativo, ético] quando é pensada na sua relação com as outras, do que pensada isoladamente.”[16 Assim sendo como interiorizar na prática esta atitude? Uma coisa é o professor/a ter consciência do processo para melhor o poder facilitar entre os seus alunos, – aprende-o apreendendo-o, (em formação) – outra é o modo de o estimular. Um dos pressupostos da teoria de Lipman concerne o entendimento da profunda inter-ligação da linguagem/fala (discurso interior e discurso oral) com o pensamento, no desenvolvimento de conceitos e consciencialização cognitiva. Ora o léxico da linguagem quotidiana é plena de conceitos com carga filosófica. Por exemplo, corpo, mente, belo, direito, justiça, pessoa, consciência, identidade, relação, metáfora, movimento, matéria, razão e por aí fora, e muitos outros que contextualizados numa história filosófica, boneca, morcego, mamífero, cérebro, número, espaço, tempo atraiam a curiosidade dos leitores. Daí as sete novelas filosóficas para cada ano escolar. O valor cognitivo do diálogo filosófico não se fica pela exploração conceptual. Além do desenvolvimento de capacidades, de disposições, de atitudes positivas, etc., há a satisfação dos intervenientes por terem um tempo para reflectir sobre aquilo que os interessa, a pouco e pouco com maior rigor lógico e melhor argumentação crítica. Constatação que os próprios fazem com efeitos positivos na auto-estima de cada um. Embora, não necessariamente na escola (pré-escolar incluído), isto é, em muitos outros lugares, esse é o espaço de uma comunidade de investigação em acção. Jamais me esquecerei da criança que disse pensativamente à professora enquanto caminhavam para a saída da escola, “gosto tanto de pensar!”.

Pensar bem para agir melhor?

Desejavelmente sim, mas nem sempre. Consideremos um caso tornado público em 2008, com enormes consequências no impacto da economia global. Ninguém negará que não sendo o único responsável, Robert Madoff está também na origem da maior crise financeira e económica dos últimos oitenta anos (2008) cujas repercussões mundiais desastrosas afectaram não apenas os EUA onde surgiu, como alastraram à UE causando um impacto gravoso do qual esta, passados que são três ainda não se refez completamente. Foi certamente criativo o esquema bolsista que engendrou para obter o que lhe interessava, – a riqueza que lhe daria o prestígio social e o poder no mundo da finança. Bem sucedido durante uns anos, acabou na cadeia para o resto da vida, destruiu uma família unida e ao que se conta feliz, um dos filhos suicidou-se, os outros nem o querem ver. Esta situação dramática escolhia-a como exemplo de que não nos podemos esquecer que criatividade em si não é boa nem má. Sobretudo, e em certos casos quando o seu exercício não tem o respaldo da ética pode muito bem ser posta ao uso da iniquidade. Mesmo as ideias, acções, decisões e descobertas inovadoras ou criativas, ponderadas e atentas a eliminar efeitos indesejáveis, podem trazer consigo consequências nefastas impensáveis. No turbulento mundo em que vivemos, competitivo e imprevisível, compreende-se que a criatividade seja crucial para a nossa sobrevivência. Perante todas as incertezas com que se confrontam as sociedades num mundo tornado global, em acelerada mutação, a garantia de um futuro promissor não é automaticamente dada por um curso. A muito apregoada necessidade de criatividade já é quase um chavão insuportável de ouvir, o que não anula a sua importância. Criatividade nos negócios, nas empresas, enfim colocação e resolução de problemas tendo como meta o sucesso individual e colectivo. Todavia, não basta. Somos testemunhas da velocidade da história, das transformações sociais, políticas científicas e tecnológicas e destacadamente económicas no nosso presente e futuro próximo. Tudo tem relação com tudo, neste nosso planeta. São redes de relações que não se coadunam com uma perspectiva linear e unívoca das mentalidades e evolução histórica da humanidade. Não temos recuo para apreciar, mas provavelmente estaremos numa mudança de paradigma, ou a precisar disso. Ao aparente, real ou como se fosse real, culminar da predominância da Finança e Economia sobre a acção política na governação e na sociedade civil, a Este e a Leste, pese embora as enormes desigualdades na qualidade de vida entre ambos os hemisférios, opõem-se vozes que se pronunciam contra a ganância dos mercados, a falta de valores como a solidariedade e o bem comum a que junto a liberdade. e a paz. Resta saber se da constatação se passará à acção. Nesse sentido, a criatividade aplicada à teoria política e económica e financeira com uma vertente ética poderá eventualmente evoluir para diferentes teorias suficientemente atraentes para serem testadas. E, como sempre, a educação, sobretudo de pendor reflexivo e não de mera transmissão de conhecimentos deverá estar no cerne das transformações sociais. Porquê? Mas antes de prosseguir, e sabendo que é uma posição controversa note-se que  os valores não se impõem, sob pena de o deixarem de ser. É um facto de que interiorizamos valores positivos e negativos através da educação, da religião de várias formas de cultura, da sociedade, da família, do local geográfico em que nascemos. O que acontece é que os podemos criticar e substituir ou eliminar. Quanto a haver ou não valores universais basta aqui assinalar essa discussão. Por um lado, sem flexibilidade de pensamento, sem capacidade de tomar conscientemente várias perspectivas em consideração, sem capacidade de pensar criticamente, isto é, usando critérios, de antecipar consequências, e sem responsabilidade para com os outros, para com a natureza, e por aí fora, em suma, sem o desenvolvimento destas disposições, a manipulação das ideias e dos sentimentos e emoções é muito mais fácil de ocorrer com um ensino que privilegie sobretudo a transmissão de conhecimentos e a sua memorização. Porque muita da informação é rapidamente ultrapassada pela dinâmica própria das áreas de estudo, nomeadamente das ciências, compreende-se a necessidade dos destinatários saberem pensar por si e a pensar crítica e criativamente, considerando-se em permanente aprendizagem. Por outro, a educação desde os meados do século vinte, um direito da humanidade é um factor central na libertação das pessoas, da sua emancipação económica pelo trabalho e valorização das suas potencialidades. Não são duas vertentes antagónicas pois, tal como acontece com a criatividade, não basta ter talento, ser mais ou menos cognitivamente dotado ou emocionalmente rico, é preciso trabalhar os conteúdos nas várias áreas de conhecimento, desde o pré-escolar à universidade incluída de forma que as crianças e jovens e adultos pela vida fora se possam apropriar dos conhecimentos de forma activa e crítica. Em suma, é preciso que saibam questionar e questionar-se, algo de que não se descarta ao sair da escola. A educação de futuros cidadãos de uma sociedade democrática em transformação, ou em vias do ser, um dos objectivos de Lipman, é mais do que nunca vital. Mentes interrogativas e cidadania esforçada para um mundo melhor.

De diferença de grau a diferença de género?

O estudo do funcionamento do cérebro é uma das áreas em que a inovação relacionada da ciência e da tecnologia tem vindo a avançar exponencialmente nos últimos vinte anos. Algo que graças aos livros de divulgação científica, artigos nos jornais, revistas e acesso a conferências de especialistas via rede, se torna parte do património de ideias de quem por isso se interesse. Se é verdade que a Filosofia se questiona acerca da relação mente – corpo há vários séculos, o facto é que a célebre separação cartesiana entre alma e corpo, a res cogistans e a res extensa, abriu uma enorme controvérsia que se prolongou ao longo do século XX e continua actual. Não obstante as alterações terminológicas, – de alma e mente, consciência, consciência de si, fenómenos mentais, actos mentais e as várias teorias explicativas filosóficas que foram surgindo para resolver a, para alguns misteriosa, para outros problemática natureza dessa relação, – continua-se hoje em dia  o diálogo indispensável entre filósofos e cientistas sobre o tema. Se bem que alguns destes deitem um olhar algo irónico e sobranceiro sobre os filósofos, mas não se coíbam de cair nesse tipo de elucubrações[17]. Mas há também casos como o de Susan Greenfield, uma neurocientista que nos seus trabalhos de divulgação tem mantido uma relação profícua com a filosofia. Todavia este tipo de complementaridade entre a filosofia e a ciência tem uma já longa história na tradição ocidental, desde que os gregos nos legaram a filosofia e as ciências começaram a emergir desta. O problema, persistente, diz respeito à natureza e origem da mente, nomeadamente como é possível algo físico, material como o corpo incluindo o cérebro dar origem a algo imaterial. Numa formulação ligeiramente diferente, o problema será o de saber como duas substâncias distintas, uma material, outra imaterial poderão actuar uma sobre a outra. Deixando por ora esta questão, que desde já exigiria pelo menos uma breve explicitação das várias teses em confronto nas discussões na filosofia da mente, (a ser tratada noutro espaço) não é novidade dizer que exceptuando os casos de pacientes submetidos a uma cirurgia do cérebro, não se conseguem obter conhecimentos directos sobre o funcionamento do cérebro humano. Por essa via um dos ganhos para os avanços da psicologia cognitiva e neurociência decorre das alterações de comportamento em pacientes que sofrem ablações de partes do cérebro, ou, por exemplo, em resultado de outras doenças do cérebro ou do sistema nervoso central[18]. A verdade é que nas últimas décadas do século passado, com o desenvolvimento da neurociência e das técnicas não evasivas de observação do cérebro humano vivo, sobretudo com a fMIR[19], ressonância magnética funcional, tem-se avançado para um quadro menos lacunar e porventura mais rigoroso dos mecanismos e funções do cérebro. Por outro lado, esses avanços científicos deixam de fora os problemas difíceis que a dita relação mente-corpo levantam. Daí que na dupla impossibilidade ética e técnica de fazer experiências com seres humanos, alguns filósofos tenham desenhado inusitadas experiencias conceptuais. Como sejam, por exemplo, as que decorrem (a situação é como se fosse no presente) da troca de cérebro entre duas pessoas, havendo algumas variantes como, apenas trocar apenas metade do cérebro e daí tirar ilações logicamente bem formadas. A experiência conceptual conhecida como “A brain in a vat”, foi concebida por Hilary Putnam,[20] que quanto a mim encontra expressão nalgumas obras literárias. Possivelmente este tipo de experiência foi e é também um filão para a literatura. Estou-me a lembrar de Roald Dalh e do seu humor negro num dos contos de Kiss, Kiss.[21] O marido que antes de morrer acedeu a deixar que o seu cérebro permanecesse intacto num recipiente transparente e que assiste impotente à transformação radical da sua submissa esposa em esposa livre de agir como bem entende.  Ele bem pode ordenar e argumentar como o fazia antes com ela, só que não passa disso. Tarde para compreender que sem corpo se tinha encarcerado numa imortalidade infernal.  Ou como o personagem de Hanif Kureishi em The Body que também não tem uma experiência feliz ao trocar de corpo[22]. Com este tipo de artificio conceptual é possível explorar as ideias de identidade, consciência na sua relação original, ou não, com o corpo e retirar ilações a favor ou contra que substanciam, por exemplo a teoria da interacção por oposição ao paralelismo de funcionamento da mente e do corpo[23]. Ou mais recentemente nas discussões entre os defensores das teorias reducionistas da mente versus as teorias não-reducionistas[24].

Partindo do pressuposto de que o conhecimento científico é imparável, o que fazer para manter a nossa capacidade de decisão, dentro do difícil equilíbrio das forças dinâmicas que actuam dentro e fora de cada um? Como compatibilizar o progresso exponencial do conhecimento e suas aplicações com um desenvolvimento equiparável ao das outras vertentes do ser o humano enquanto tal? Se se quiser como detentores de direitos e deveres comuns. Claro que será um terreno escorregadio, a carecer da definição dos termos. Fiquemos por agora com a observação empírica da permanência da crueldade, sob as mais diversas formas, da ganância, da prepotência, do egoísmo, da intolerância, da injustiça, desigualdade entre os que têm e os que não têm, e por aí fora. É um problema cuja formulação foi muito clara no século XVIII, uma das ideias fortes de Rousseau, que continua, a meu ver, actual apesar da obrigatória diferença de contexto. Ontem como hoje a ética é transversal aos problemas. Vem isto a propósito do artigo 2045: The Year Man Becomes Imortal de Lev Grossman[25].   Se para uma faixa etária da população mundial a imortalidade já chegará tarde, a ser assim fica a pergunta de como será isso possível? E já que o artigo aparece dento da secção “science” e ainda que fosse só por isso, depreende-se que não se trata de ciência ficção. Mas não impede que seja à primeira vista uma ideia algo abstrusa. Nada que surpreenda Raymond Kurtzeil, engenheiro, inventor e futurologista, que pacientemente responde a esse tipo de dúvidas[26]. Criador do Movimento “Singularity” e fundador da Universidade e Instituto de Investigação com o mesmo nome, onde reúne um grupo de figuras de grande impacto mundial nas mais variadas áreas da ciência e tecnologia, economia, neurociência, nanotecnologia, biotecnologia, psicologia cognitiva e por ai fora. O seu passado profissional evidencia um homem de uma enorme criatividade e inteligência. São várias as ideias deflectoras dos membros do Singularity sendo que uma delas,  a superação da morte, ou prolongamento da vida (life extension) até ao ponto de atingir a imortalidade  se encontra em processo de investigação. Em parte têm a sua origem no cálculo exponencial – e não linear como tendemos a pensar, – do desenvolvimento da ciência e da tecnologia de que há a salientar a inteligência artificial, AI. “Os limites biológicos que muitas pessoas consideram permanentes e inevitáveis são vistos pelos Singularitarians como problemas persistentes mas resolúveis. A morte é um deles. A idade avançada é uma doença como qualquer outra, dizem. O que se faz com as doenças? Curamo-las. À primeira vista são ridículas, como muitas de outras das suas ideias, mas quanto mais as aprofundamos, menos ridículas nos parecem. Não se trata de fantasiar: efectivamente, assistimos à ciência em acção nesse campo”[27]. Concomitantemente, a AI interessa-se pela questão de saber se um computador pode vir a ser realmente inteligente, ao ponto de possuir consciência. Por enquanto tal não é possível. Mas há já importantes avanços graças à nano e biotecnologias. Ficamos a saber, por exemplo, que, actualmente, cerca de 30.000 pacientes com a doença de Parkinson já receberam implantes neuronais. Kurzweil e outros consideram que ao que tudo indica os computadores vão continuar a desenvolver-se até se tornarem mais inteligentes do que nós. Como a velocidade de desenvolvimento dos computadores será cada vez maior, a certa altura vão ultrapassar os seus criadores humanos cuja inteligência já será mais lenta. Imaginemos, propõe-nos Grossam, um computador cientista que é também um computador super-inteligente que trabalha com enorme rapidez. Haverá uma fusão do humano com o computador. Onde nos levará isso, perguntamos nós. Sonho ou pesadelo, supondo a sua viabilidade é fácil antever o prolongamento da maior das iniquidades entre os que têm e os que não têm riqueza e na pior das hipóteses a subjugação de uma parte da humanidade pelos imortais e/ou pelas máquinas, ou uma mistura de ambas. Estamos perante uma hipótese que o imparável processo de superação da capacidade dos computadores para virem a contribuir para a extensão da vida humana, até à imortalidade, e por outro, a superarem o próprio ser humano na criação em seres difíceis de classificar. A fase de investigação nestas matérias é multidisciplinar abrangendo áreas da ciência em grande desenvolvimento como a AI e a robótica, a neurociência da biopsicologia, a nanotecnologia, etc., que como os Singulitarians supõem levarão à efectivação da hipótese. Qualquer que seja o processo implicaria, a meu ver mais do que uma mudança de paradigma, já que as diferenças entre os seres humanos sofreriam uma mudança qualitativa de grau para género. O género humano tal como o e nos conhecemos deixaria de existir em resultado de intervenções mecânicas e não na ordem da evolução puramente biológica, e consequentemente, a civilização humana tal como a conhecemos deixaria de existir. A espécie humana, daria lugar a algo qualitativamente diferente, num mundo em que as categorias e valores, caso ainda houvesse espaço para tal seriam completamente outros. Ora o problema que pode surgir ao que afirmam  dentro de 34 anos, tem pelo menos dois aspectos diferentes, por um lado, a máquina aperfeiçoada até ter autonomia de decisão e por outro, os seres humanos cuja capacidade cognitiva é aumentada exponencialmente pela implantação de chips mas fica aquém das máquinas. Nesse cenário o que acontece à consciência se o desenvolvimento do processo de alteração qualitativa da espécie humana se orientar para a autonomia da máquina sobre o homem? Terá ela consciência, um eu, sentimentos, ou será dura e fria e insensível? Por enquanto, há já várias experiências de robots que manifestam emoções apropriadas à situação pensada pelos cientistas que os criam. Será plausível pensar que o computador a certa altura se possa tornar auto generativo cognitivamente? E se não produzir a consciência? Um filme de ficção científica de terror? Ou uma experiência conceptual do tipo das mencionadas atrás? Nem uma coisa nem outra diria Kurtzweil por certo. Tem afirmado aos críticos incrédulos que porque o processo está em curso, o melhor é tomar a sério as previsões de futuro antes que o desenvolvimento destas ideias e conhecimentos se faça pouco escrupulosamente fora do meio académico. A certa altura Lev Grossam resume as hipóteses resolutivas em aberto assim: “muitas coisas podem acontecer onde ninguém as pode ver, bem nas profundezas do cérebro negro de silicone dos computadores. A pouco e pouco, ou vão aparecer em mentes conscientes, ou então continuar com interacções cada vez mais brilhantes e poderosas destituídas de consciência”. Em todo o caso é de crer, penso, uma intuição de facto, que as coisas não se passem tal e qual dada a complexidade de factores envolvidos que ultrapassam a previsibilidade do enquadramento científico. De qualquer modo, independentemente de se passar ou não a nossa distintiva criatividade para os computadores, complexos e interessantes novos problemas éticos vão requerer de todos nós a capacidade de os apreciarmos criticamente antes. E, aí o pensamento filosófico que tal como a criatividade todos temos e podemos desenvolver é parte integrante da acção futura. Entretanto, pelo sim, pelo não, o melhor será proporcionar ao maior número de pessoas possível uma educação humanística: os instrumentos da sua liberdade, -liberdade e acção – uma mente agilizada, crítica e criativa, capaz de ajuizar com discernimento, mas sabendo que está sujeita a erro. Para não nos acontecer o mesmo que aos computadores o que no pior dos casos seria desenvolvermos apenas as competências cognitivas, sem atender às emoções, afectos e valores, um dos quais é fulcral, a autonomia de pensamento na busca da compreensão de si mesmo e do mundo à volta. Tal passa pela contribuição dos não-eu, dos outros, que também somos, como pessoas e não como coisas.

 Colares, Julho 2011

 Zaza Carneiro de Moura


[1] Este texto é o desenvolvimento dos tópicos de uma comunicação com o mesmo nome apresentada no dia 18 de Fevereiro de 2011, no I Encontro de Filosofia e Criatividade em Aveiro, organizado pelo grupo Filosofia e Criatividade com um blogue do mesmo nome. A abertura da sessão iniciou-se por um rápido diálogo com a audiência, erguntando eu espaçadamente: “O que vêem? / Alguém quer ler a frase da parede? / E a tradução para português? /Notam alguma diferença para além da própria língua? Houve várias respostas que foram abrindo pistas a uns e outros, sendo que “ a rima é diferente”, – entre a frase em alemão e português, entenda-se, – tem muito a ver com o que se segue imediatamente.
[2] Fotografia da autora.
[3] Do catálogo da exposição, LIFE DEATH LOVE HATE PLEASURE PAIN, The Museum of Contemporary Art – MCA, Chicago, realizada de 16 de Dezembro de 2002 a 20 de Abril de 2003.
[4] Cf., Vários autores, MINDPOWER, Enhance Your Thinking Skills, Time-Life Books, Amsterdam, 1996 e Vários autores, MINDPOWER, Develop Your Creative Skills, Time-Life Books, Amsterdam, 1993.
[5] Ver citação completa em Damásio, António R.G., Descartes’ Error – Emotion, Reason, and the Human  Brain, G.P. Pugnamos  Sons, Nem York, 1994 GPS. 188-189; O Erro de Descartes – Emoção, Razão e Cérebro Humano, Publicações Europa-América.1996, paga. 187-189.
[6] Functional magnetic resonance imaging.
[7] Scheffler, Israel,  In Praise of Cognitive Emotions, Routledge, 1991
[8]  Ibid
[9] Lipman, Matthew, Thinking in Education, Cambridge University Press, 2nd edition, 2003, pg, 133
[10] . Lipman, Mattew, Thinking in Education, Harvard University Press, 1991, 1st edition
[11] Boden, M. A. (2007), How Creativity Works, published by Creativity East Midlands for the Creativity: Innovation and Industry Conference, 6th December 2007; cf. da mesma autora, The Creative Mind, Miths and Mechanisms, Routledge, 2nd edition, 2005.
[12]  Ibid, Vários autores, MINDPOWER, Enhance Your Thinking Skills, Time-Life Books, Amsterdam
[13] Exponho à crítica a bondade desta analogia que não é da responsabilidade de Eduardo de Bono.
[14] Ibid Time-Life Books,  e DE BONO, Eduardo, Ensine Os Seus Filhos a Pensar, tradução do original Teach Your Child How To Think, Difusão Cultural, 1992, De Bono, Edward, The Use of Lateral Thinking, Penguin Books,  1st edition, 1967, 3rd reprint, 1990.
[15] Lipman, Matthew, Thinking in Education, Cambridge University Press, 1991, 1ª edition, pag. 20..
[16] Lipman, Matthew, Thinking in Education, Cambridge University Press, 2nd edition, 2003
[17] Cf. Creek, Francis, The Astoninshing Hypothesis – the scientific search for the soul, Harper-Collins, 1996.
[18] Nesse âmbito há imensos relatos sobre os efeitos desse tipo de intervenções, normalmente evasivas, alguns na primeira pessoa: ver, Youtube/Ted Turner/
[19] Sigla de Functional magnetic resonance imaging.
[20] Putnam, Hilary. 1982. Reason, Truth and History. Cambridge: Cambridge University Press.
[21]William and Mary”, in Kiss, Kiss, Penguin Books.
[22] The Body and Seven Stories, Faber and Faber 2002,
[23] Problema muito discutido por Popper, Karl e Eccles J.C. em The Self and its Brain , 1997, New York: Springen Verlag International.
[24] Ver, por exemplo, Chalmers, David J., The Character of Consciousness, Oxford University Press, 2010.
[25]  TIME Magazine, February 21, 2011.
[26] Ver Kurtzweil Accelarating Intelligence, newsletter, disponível on-line.
[27] . Ibid, Lev Grossman

Notas de Abertura


É minha convicção, aliás sustentada na experiência de mais de vinte anos de trabalho com crianças e adultos, desde o pré-escolar à universidade bem como em instituições culturais e em ambientes não-formais, que todos temos capacidades próprias para fazer filosofia e que  podemos desenvolver com êxito tal aptidão.Para muitos corresponde a uma necessidade de descobrir e explorar essa dimensão das suas vidas, por vezes na busca de sentido das suas vidas. ainda que possa ser sem fim.  Mais, quando tal acontece, e aqui não importa a idade, o nosso esforço transforma-se no prazer de aprender a pensar por si mesmo, tanto na compreensão do que somos, como na nossa compreensão do mundo.  Porém, não sendo este habitualmente o ponto de vista da disciplina académica de  filosofia,  tal não significa que possamos dispensar o rigor  na argumentação das nossas ideias, nem a consideração de várias perspectivas em confronto, nem a descoberta de problemas na nossa vida quotidiana para além do âmbito estritamente pessoal, ou seja que encontram eco na filosofia dita tradicional. Este espaço a construir aqui está aberto a qualquer perspectiva de quem queira dialogar ou contribuir para tal no modo que preferir.